Esta quinta-feira (9) teve evento solene na zona Leste de São Paulo. A Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Infante Dom Henrique comemora o primeiro aniversário de sua Academia Estudantil de Letras, a AEL Mario Quintana. Estarão presentes Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Oscar Wilde e tantos outros escritores representados pelos 22 alunos acadêmicos que, há um ano, fazem estudos sobre seus autores favoritos e outros temas ligados à arte e literatura. A comemoração foi no teatro do CEU Tiquatira.
A Rede Municipal de Ensino de São Paulo tem hoje 16 AELs frequentadas por mais de mil alunos-acadêmicos, de crianças a partir de 8 anos a adultos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Cada um representa um autor diferente. Nas academias estudantis, os escritores atendem por outro nome. Na AEL Mario Quintana, Monteiro Lobato é Pedro, Ruth Rocha é John, João Cabral de Melo Neto é Ana Grécia, e Ziraldo é Ryan. Para saber sobre o patrono, Mario Quintana, chame por Gladys.
Os jovens ocupam uma cadeira permanente em sua AEL, tornando os escritores imortais. Os acadêmicos possuem suplentes, alunos mais novos que frequentam os encontros desde os primeiros anos do Ensino Fundamental para um dia substituírem seus colegas quando estes deixarem a escola, depois de formados. Juntos, fazem leituras, apresentações de música e teatro, debates e, uma vez por mês, cada acadêmico apresenta a vida e a obra de seu autor. “A ideia é tornar a escola um local de efervescência literária”, explica Maria Sueli Fonseca Gonçalves, criadora do projeto AEL, que vem sendo desenvolvido há seis anos.
“Eles passarão...eu passarinho!”
Apesar de sua importância para a literatura brasileira, o poeta Mario Quintana nunca ocupou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). Na Educação da cidade de São Paulo, ele será lembrado para sempre. “Na AEL ele é imortal”, afirma Sueli. Ela lembra do fato dele não ter conquistado um espaço de homenagem na ABL declamando o poema do próprio autor: “Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão…Eu passarinho!”. E suspira como quando se pensa em algo que é eterno.
O nascimento da AEL Mario Quintana foi um exemplo de luta. Os estudos para implantação da academia iniciaram um ano antes de sua fundação, em 2009. “As pessoas não acreditavam muito, porque a maioria dos alunos já participava de atividades no contratuno escolar”, conta a presidente da AEL, María Del Carmen Freire y Fernández. Mas ela não perdeu a esperança. Terminou o ano com apenas oito acadêmicos, e com a certeza de que fortaleceria o projeto no ano seguinte com o apoio de toda escola.
Hoje, 55 alunos participam do projeto, sendo 16 acadêmicos, outros seis prestes a assumirem uma nova cadeira e os demais na condição de “aspirantes”, como a professora chama os alunos que aguardam ansiosamente para assumirem as vezes de seu autor preferido.
Suplente com orgulho – Um deles é Cauan Freitas Araujo, de 11 anos. Ele faz parte da AEL desde o período de sua implantação. Já pensou em assumir a cadeira de Ruth Rocha, mas se apaixonou pelos poemas de Mario Quintana e decidiu que preferia estar na posição do patrono na AEL. Mas a cadeira foi disputada e Gladys, sua colega que já tinha 12 anos, assumiu o posto pois se formaria antes que ele, em 2011. “Então eu falei que preferia ser suplente para esperar a cadeira dele”.
Hoje, eles estudam juntos a vida e a obra do autor, mas é em seu quarto, momentos antes de dormir e ao lado de uma pessoa muito especial que ele faz as leituras mais gostosas dos poemas de Quintana: “gosto de ler para meu irmão de cinco anos, para ele domir”. Cauan tem a certeza que, com suas leituras para o irmãzinho, os estudos sobre o autor e com a cadeira que irá assumir futuramente, está fazendo uma grande homenagem: “Os poemas dele são tão bonitos...”
Matéria publicada no diário oficial da prefeitura de São Paulo - 09/06/2011 - p.36

